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Entrevistas

José Ribeiro Vieira | Presidente do Conselho de Administração da Movicortes

«Este foi o melhor governo depois do 25 de Abril»

(Entrevista publicada na Revista Leiria Global, editada pelo Jornal de Leiria e publicada a 29 de Junho de 2006, com o JL e Diário Económico)

Ajudou a fundar uma empresa que em muito contribuiu para a mecanização agrícola de grande parte da região de Leiria nos anos 70. José Ribeiro Vieira conta como tudo começou. Na conversa surgem temas como a regionalização e o desafio da gestão dos recursos humanos.

Como surge a sua ligação aos negócios?
Por influências difíceis de determinar, já que a minha formação foi na Academia Militar primeiro e depois no Instituto Superior Técnico (engenharia). Talvez a convivência com pessoas muito envolvidas em diferentes actividades empresariais, nomeadamente o meu sogro César Augusto da Cunha. Por outro lado, terminada que foi a Revolução do 25 de Abril, não me agradava a ideia do “regresso ao quartel”. Parecia-me que a vida militar perderia o interesse. Entretanto, tinha surgido a oportunidade, por circunstâncias familiares, de me envolver na actividade de mecanização da agricultura da região, por influência do meu pai. Assim, ficam para trás a formação militar e a engenharia electrotécnica. Depois, as coisas sucederam-se num ritmo e diversidade que o acaso fomentou sem eu controlar. É preciso não esquecer que o período pós 25 de Abril foi propício à criação e ao envolvimento em actividades que pudessem contribuir para a modernização do país. Foi um período difícil mas estimulante e criativo com o qual eu me entendi bem.

De que forma a formação militar o influenciou enquanto empresário?
Sem dúvida que influenciou. A formação na Academia Militar é sempre decisiva na consolidação da qualidade de carácter e personalidade dos alunos. Essa formação militar aliada à da engenharia, ter-me-ão inspirado a importância da liderança, da organização, da estratégia, da disciplina, do método e do trabalho em equipa. Poderá ter reduzido a minha capacidade de adaptabilidade a cenários mais complexos e de maior aventura. Conceitos como a segurança, o rigor e o sentido de responsabilidade terão ficado bem gravados na minha personalidade, a que aliei uma boa memória e a vontade de ser independente e autónomo para poder fazer o caminho que eu próprio ajudasse a abrir. Procuro não ter pressa, acabando por ter o privilégio de fazer o que gosto, sem excessivas ambições.

«…gostava afinal de “alinhar” a razão com a emoção, a objectividade com a subjectividade, a autoridade com a afectividade.»

Porquê investir num jornal e numa livraria?
Sempre gostei muito de ler e sempre fui muito interessado na actividade pública e política. Não se esqueça que no 25 de Abril era Capitão e que vivi a minha juventude num dos mais criativos e importantes períodos da história contemporânea de Portugal. Fui um privilegiado pelo acaso e em consequência da dedicação e esforço dos meus pais, exemplares em generosidade e capacidade de sacrifício em favor dos filhos. Como fiz os últimos anos do curso liceal num colégio interno os professores sugeriam-me que seguisse ou Filosofia ou Matemática, duas matérias de que sempre gostei. Poderia hoje dizer que gostava afinal de “alinhar” a razão com a emoção, a objectividade com a subjectividade, a autoridade com a afectividade. A livraria e o jornal respondem a parte disso e as empresas mais “duras” na área do equipamento, a outra.

Quais são as suas principais fontes de informação?
Leio bastantes jornais e revistas e todos os dias o Diário de Notícias, o Público e o Diário Económico, para além, naturalmente, do Expresso e do Jornal de Leiria. Livros, muitos, especialmente de história ou romances históricos, particularmente capazes de me ajudar a perceber porque somos o que somos. Atraem-me muito as leituras sobre a fundação e desenvolvimento do Cristianismo nas suas diferentes interpretações e na sua relação com a história de Portugal. Sou um leitor compulsivo de Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Padre António Vieira e de todos os que escrevem sobre a dimensão afectiva e poética de Portugal.

«Valorizo a capacidade de trabalho em grupo, para além da inteligência criativa e individual.»

A reflexão é útil também nos negócios…
Muito útil. A filosofia é a disciplina da interrogação e da reflexão. O silêncio e a leitura são fundamentais à consolidação das características de comportamento para quem tem necessidade de agir em contextos de grande complexidade. Agir sem reflectir é correr para o abismo.

O que espera das pessoas que escolhe para trabalhar?
Que sejam sensíveis, inteligentes e que vejam o trabalho como uma saudável ocupação. Valorizo a capacidade de trabalho em grupo, para além da inteligência criativa e individual.

Que experiências guarda das viagens que fez?
Sou curioso e considero-me um razoável observador social. Gosto de conhecer culturas diferentes. Aproveito para comparar métodos de gestão e filosofias de empresa. Sou um atento observador da forma como se organizam nos diferentes países e regiões do mundo.

«Depois da II Guerra Mundial criou-se na Europa um sentimento de facilidade»

O que distingue das empresas europeias das asiáticas?
Depois da II Guerra Mundial criou-se na Europa um sentimento de facilidade. Há uma diferença de ritmo e de identidade. A economia japonesa tem um objectivo comum, valoriza o trabalho em equipa e tem uma cultura muito patriótica que não se vê na Europa. Nós queixamo-nos muito. Para além disso, os asiáticos são mais profundos na investigação das coisas e no investimento que fazem em si mesmos. Há 25 anos existiam 50 fábricas de escavadoras na Europa, agora não existe quase nenhuma. Os japoneses ultrapassaram-nos tecnologicamente e os europeus passaram a comprar tecnologia no Japão.

A questão da sucessão preocupa-o?
Não. Só me preocupa a circunstância eventual de deixar demasiadas responsabilidades às minhas filhas. Gostaria que elas pudessem levar uma vida agradável, gostando do que fazem e que vissem as empresas como estruturas úteis sob o ponto de vista social, onde podem desenvolver uma gratificante ocupação, se o entenderem. Quando as empresas são saudáveis e preparadas, encontram sempre soluções de sucessão.

«…se quiser ter empresas qualificadas não se pode pensar só no mercado nacional.»

Já se sentiu obrigado a crescer mais do que pretendia?
Sim. Mas se quiser ter empresas qualificadas não se pode pensar só no mercado nacional. Pode ser-se obrigado a crescer mais do que se desejaria, até porque o risco aumenta e o trabalho e responsabilidade também!

Qual a apreciação que faz dos primeiros meses deste governo?
Estou optimista. Acho que este governo, com todas as insuficiências que possa ter, foi até agora o melhor depois do 25 de Abril. É preciso é que o primeiro-ministro não perca a coragem de continuar a fazer as reformas que o país precisa. Mesmo que tenha que cometer algumas injustiças e alguns erros.


Projectos «serenos» no 25º aniversário do Grupo

A Movicortes vai fazer 25 anos e os projectos de José Ribeiro Vieira passam por investir nas condições de trabalho das pessoas, através da melhoria das instalações, bem como por fazer com que a empresa chegue «aos mercados que pode alcançar».

Tem previsto um investimento estratégico de cerca de cinco milhões de euros em produção de vinho no Alentejo. A produção em quantidade está prevista para 2008 e os mercados de destino eleitos são a Europa mas também Angola, Brasil e China. Em 2005 facturou 50 milhões de euros, estimando um crescimento de 5 a 10 por cento para 2006, o ano em que a Vimoter, empresa associada da Movicortes para o segmento automóvel, inaugurou o terceiro Centro Porsche do país.


*nota da jornalista à data actual

Devo reconhecer, se me é permitida uma nota mais pessoal, que recebi a notícia do falecimento do Eng. Vieira com um inesperado nível de consternação.

Em primeiro lugar, porque tinha a morte como uma teoria distante, mesmo quando o questionei sobre o tema da sucessão. E em segundo porque, naturalmente, nunca tinha sido levada a fazer o balanço da sua passagem pela minha vida.

Guardo a memória de alguém que acreditava na minha capacidade de trabalho mais do que eu própria, e sinto-me grata pelos desafios que me lançou nesse sentido em algumas publicações para o Jornal de Leiria. Guardo também, e sobretudo, o genuíno interesse em saber de mim e do meu irmão, que também conhecia. Para não falar das horas passadas em reunião na Arquivo (o Eng. Vieira gostava de conversar!).

À família e aos amigos mais próximos, desejo serenidade e coragem para dar continuidade à extensa obra que deixa, sem o peso de «demasiada responsabilidade», como expressou nesta entrevista realizada em 2006, que aqui recordamos.

Ao Eng. Vieira, que descanse em paz e até um dia.

REDACÇÃO | Célia Marques cmarques@leiriaeconomica.com

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