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Actualidade

Cristalaria não partiu de todo

Célia Marques

(Artigo publicado na revista 250 Maiores Empresas do Distrito de Leiria, editada pelo Jornal de Leiria e publicada a 26/10/2006 com o JdL e 29/10/2006 com o Público)

A cristalaria está a querer renascer. Restam apenas dez empresas, mas revelam empenho e projectos para vencer as conhecidas dificuldades. A factura da energia pesa mais do que a concorrência desleal.

Depois do fracasso do projecto Vitrocristal, antecipado pela maioria dos empresários que permanecem no sector, e da desactivação de mais duas empresas – a Dâmaso e a Marividros – as sobreviventes estão ai para mostrar que a cristalaria não é poesia, mas um negócio de empresas industriais, vocacionadas para a exportação, algumas lideradas por jovens empresários, o que contraria a ideia de que o sector não atrai gente jovem. Sangue novo, que conta com o apoio e experiência de quem já cá anda há mais tempo.

Que há mercado para o vidro ninguém tem dúvidas. Está por toda a parte e integra o dia à dia das pessoas. O que está em causa é a rentabilidade das empresas: como negócio que é, só gera valor se as receitas superarem os custos, e o problema não se resolve com injecções de dinheiro, nem com subsídios. Os empresários ouvidos pedem apenas que lhes sejam dadas as mesmas condições de que beneficiam as grandes empresas, no que respeita aos custos com a energia – a maior, e mais pesada, das preocupações.

O preço do gás é fixado em função do nível de consumo, o que significa que as PME pagam a energia mais cara do que as grandes empresas. A factura energética representa para estas empresas 40 por cento dos custos totais, uma condicionante maior do que a concorrência proveniente de países como a China, Índia, Filipinas e Turquia.

«Relativamente à concorrência, temo-nos conseguido diferenciar. No que respeita à energia, não podemos fazer nada», explica Marco Martinho, sócio-gerente da Canividro. Paulo Santos, sócio-gerente da Favicri, exemplifica: se pagasse o gás ao preço a que pagam as grandes vidreiras, poupava 20 mil euros por mês, o que permitia investir em tecnologia e modernizar a empresa em cinco, ou seis anos.

Mas empresas estão a movimentar-se junto do poder político para terem acesso a meios de produção mais competitivos. «O Estado começa a falar em liberalização do gás e o industriais estão atentos. A indústria quer ir beber à fonte», adianta José Ferreira, presidente do Conselho de Administração da Tosel.

Reanimar a AIC e aproveitar o que resta da Vitrocristal

A união faz a força, e é para fazer face à questão energética, e não só, que as empresas decidiram avançar com uma lista candidata à direcção da Associação dos Industriais de Cristalaria (AIC), que se encontra demissionária há mais de um ano. A ser eleita (as eleições estão marcadas para 20 de Novembro), a nova direcção será composta por empresários, e não por «tecnocratas do vidro», o que, segundo José Maria Ferreira, deverá fazer toda a diferença.

Em causa estão empresas «com pernas para andar, que operam em mercados diferentes e que se complementam entre si», explica Marco Martinho, da Canividro, a empresa que, na única lista apresentada até ao momento, encabeça a direcção. Juntas podem conseguir «algumas economias de escala, melhorias de competitividade e apoios para a promoção no exterior», uma vez que as empresas exportam, em média, 90 por cento da produção.

A nova direcção tem ainda planos para aproveitar o que resta da Vitrocristal. Da mesma opinião partilha José Maria Ferreira, presidente da Tosel, referindo-se às peças criadas, moldes, material publicitário e trabalho de promoção. De fora ficam «os excessos» e a ideia «absurda» de colocar todas as empresas a vender o mesmo produto. «Era como se a Suíça passasse a vender apenas uma marca de chocolates, ou de relógios», exemplifica.

Inovação e gestão rigorosa

Perante as mesmas condições de mercado e até com menos apoios, é caso para perguntar o que está na base da sobrevivência das empresas de cristalaria, ainda que, com assumidas dificuldades.

Embora cada empresa adopte uma estratégia diferenciada, verifica-se a existência de elementos comuns: aposta-se em melhoria contínua, controlo absoluto de custos, minimização de stocks, agilização da produção, o que pressupõe algum grau de automatização e consequente libertação de mão-de-obra. É igualmente importante comprar bem, liquidar passivos e avaliar, diariamente, onde se ganhou e se perdeu dinheiro.

«Quando existe muito dinheiro dentro das empresas, é fácil incorrer em facilitismos e excesso de optimismo. Gasta-se dinheiro no acessório e a baixa produtividade mantém-se. O problema da indústria não se resolve com rios de dinheiro», explica José Ferreira, referindo-se à Vitrocristal e aos apoios recebidos por empresas que acabaram por encerrar.

Mas não é só isso que está em causa. Quando o Estado apoia a empresa x e y, a banca e os fornecedores vão atrás e a ajuda acaba por ser contraproducente. «Se a banca me nega crédito a um mau projecto, está a fazer-me um favor», explica o empresário.

Design e diferenciação

A Vitrocristal teve, no entanto, algum mérito: criou uma marca, projectou o vidro português no mundo e veio sensibilizar os empresários para a importância do design. Foi no âmbito da formação prestada pela Vitrocristal, que a Favicri recebeu um designer que ainda hoje mantém, e que permite «um serviço muito mais personalizado», explica Paulo Santos, um dos sócios da empresa.

A Favicri tem em curso um processo de remodelação que contempla mão-de-obra mais qualificada e alguma automatização, aquela que esta “arte industrializada” e a disponibilidade financeira permitem. O objectivo passa por melhorar os níveis de qualidade e reduzir o custo por peça. O investimento é na ordem dos 250 mil euros, para uma produção que se reparte entre o vidro soprado e o smi-automático e prensado, com tendência para redução do peso do vidro soprado.

A facturação ronda 1,7 milhões de euros, com perspectiva de crescer 5 a 10 por cento este ano, e com menos 20 colaboradores face ao ano anterior. Cerca de 75 por cento da facturação advém do mercado externo.

Também na Canividro o design assume um papel fundamental. Embora trabalhe com design dos clientes, fez do design próprio o seu cartão de visita, «o que acaba por trazer à empresa outros projectos», explica Marco Martinho. A Austrália e Nova Zelândia representam para a Canividro uma oportunidade a explorar, embora os de maior peso sejam os Estados Unidos, Espanha, França e Reino Unido.

Maior proximidade ao consumidor final

A Tosel, continua a terciarizar, a aproximar-se do consumidor final, para melhorar a rentabilidade, o que implica a abertura de filiais noutros países. A estratégia passa por desenvolver produtos mais evoluídos, de cariz técnico, com design e criatividade, que estejam na primeira linha de mercado, e evitar os de consumo massificado. «A vida dos produtos é cada vez mais curta, o que obriga a um investimento constante em novas tecnologias, novo design e novos moldes», explica José Maria Ferreira.

De inovação – quer no design, quer na utilização de outros materiais associados ao vidro – vive também a Jasmim, até porque «os custos da mão-de-obra e energia não permitem que se produza vidro sem valor acrescentado», explica António Noivo, o fundador da empresa que assenta num conceito de estúdio de vidro artístico e manual, preparado para que o visitante possa assistir ao processo de fabrico.

Exigências acrescidas no que respeita à qualidade, consumo energético e mão-de-obra, uma vez que utiliza o processo de fabrico tradicional, o que obriga à constante procura de nichos de mercado vocacionados para um target mais elevado, como as galerias e lojas design.

O vidro da Jasmim marca presença na Europa, Estados Unidos, América do Sul, África, Arábia Saudita, Hong Kong, Japão, Coreia e Tailândia, «embora todos dispostos a comprar menos e a discutir preço», ressalva o empresário, salientando a dificuldade em vender o seu produto num mercado «globalizado, em que peças semelhantes custam um quinto do preço e substitutas metade, embora com manifestas diferenças de qualidade, que o consumidor não nota», defende António Noivo, mostrando-se pouco confiante na sobrevivência de uma indústria tradicional assente em mão-de-obra e elevado consumo energético.

Fica a mensagem de esperança de uma nova geração de vidreiros: «numa altura em que se fala tanto em empreendedorismo é preciso mostrar que, apesar de difícil, é possível», afirma Marco Martinho.

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