Entrevistas  
José Benzinho / Presidente da Leirisport
«A Leirisport será aquilo que os leirienses e a Câmara quiserem» (parte II)
22 Set. 06
Célia Marques
cmarques@leiriaeconomica.com

Rui Marques
rmarques@leiriaeconomica.com


É em 2007 que a Leirisport espera vender o topo norte do Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa e arrecadar entre dez a trinta e cinco milhões de euros, revelou José Benzinho, presidente da Leirisport, em entrevista ao Leiria Económica. Saiba ainda o que José Benzinho pensa sobre o Euro 2004 e como vê a Leirisport daqui a dez anos.

Qual é a motivação para gerir uma empresa que dificilmente terá resultados positivos nos próximos anos?
Quando vim conhecia genericamente o projecto, mas não olhei para os números. Aceitei atendendo à pessoa que me convidou e ao cenário que traçou. Achei que podia dar o meu modesto contributo. Encontrei uma boa equipa e números aparentemente interessantes – 49 mil euros de lucro – que rapidamente desapareceram, porque se esqueceram de contabilizar as amortizações. De qualquer forma, acho que a empresa tem potencial. É um desafio e uma missão. Em relação aos resultados, podem chegar a positivos, se houver uma reformulação da dívida da empresa, por via de aumento de capital, ou se tiver uma receita extraordinária que permita reduzi-la. Enquanto isso não acontece, trabalhamos com o cash flow, com as variáveis que podemos influenciar.  

Que efeito terá a venda do topo Norte à Câmara nas contas da Leirisport?
Está tudo dependente da alteração ao PDM no sentido de permitir que ali se construa, porque só está autorizado para eventos desportivos. Essa alteração está em curso e julgo que a decisão estará para breve. Quem ganhar o concurso público para a construção do novo centro comercial vai ter de encontrar uma solução para o topo Norte, mas como a Câmara não pode fazer nada no que não é dela, fizemos um contrato que legaliza essa utilização. A entidade que ganhar o concurso faz um negócio com a Câmara e só depois é que concretizamos o negócio com a autarquia.

Mas não tinha vendido por dez milhões de euros?
Se colocarmos o topo Norte no mercado, queremos fazê-lo a preço de mercado. A avaliação aponta para 35 milhões de euros, mas teríamos de pagar imposto sobre a mais valia. Se o negócio for feito com a Câmara, cedemos pelo justo valor em termos de duas entidades que são próximas, ou seja pelo valor contabilístico, os dez milhões de euros, embora estejamos a fazer uma avaliação do estádio e esse valor possa mudar, caso se venha a identificar alguma divergência entre o valor registado na contabilidade e o valor apurado em fase de auditoria física e documental. Esta hipótese é igualmente válida para outras parcelas, ou contas, do estádio. De qualquer forma, tratando-se de uma venda, tem influência no resultado, no valor de dez milhões de euros. Julgo que a venda à Câmara é a solução mais operacional e não é má.

Qual é o objectivo da avaliação que está em curso?
Fazer um levantamento exaustivo dos componentes que constituem o edifício Estádio Municipal de Leiria, visando validar e, se for caso disso, regularizar as transferências efectuadas da conta Imobilizações em Curso para outras contas, nomeadamente, Edifícios e Outras Construções e Equipamento Básico, o que foi efectuado de forma provisória e sem atender à natureza dos bens.

«Em 2007 é que contamos receber esses dez milhões do topo Norte»

Em 2006, quanto é que a Câmara vai transferir para a Leirisport, exceptuando as compensações indemenizatórias e o pagamento de eventuais serviços, enquanto cliente?
Zero. Em 2007 é que contamos receber esses dez milhões do topo Norte e os suprimentos que estão orçamentados no valor do diferencial para liquidar o empréstimo bancário, ou seja 19 milhões de euros. Mas uma vez mais, estou dependente de terceiros. No futuro, com a nova Lei das Finanças Locais, em cada ano que ocorra um prejuízo as câmaras terão de fazer a sua cobertura imediata, via aumento de capital. Este ano, por exemplo, teria de ter feito um aumento de capital de quatro milhões, que foi o montante do prejuízo.

Concorda com esse novo modelo?
Para o gestor acho que tem vantagens. Sou defensor do modelo de gestão por objectivos e o novo modelo aponta para ai. Neste caso, o objectivo pode ser reduzir o prejuízo, até porque há quem defenda que uma empresa municipal não deve ter lucros. O gestor não deve ser penalizado por lhe ser imposto um modelo de financiamento que não permite ir ao mercado, captar novos accionistas ou reforçar os actuais.

Não havendo redução da dívida, o montante de juros pagos vai ser idêntico ao do ano passado, cerca de um milhão de euros?
Deve manter-se, ou aumentar, devido à subida das taxas de juro.

A certa altura, o relatório parece sugerir que o estádio devia ser um activo da Câmara e não da Leirisport, que desse modo não suportaria as amortizações nem os juros com empréstimos que respeitam à infra-estrutura...
O que queremos dizer é que estando aqui o estádio, então que se olhe para os resultados operacionais, porque o resto tem a ver com a infra-estrutura.

«Enquanto cidadão, acho que talvez se pudesse ter feito o Euro com menos estádios»

Em 2004, a Câmara transferiu para a Leirisport 55 milhões de euros via suprimentos. Em 2005 a Leirisport apresenta um prejuízo de quatro milhões, uma exposição à dívida de 29 milhões. Também acha que os leirienses não perdoariam a presidente se não tivéssemos o Euro 2004 em Leiria?
Enquanto cidadão, acho que talvez se pudesse ter feito o Euro com menos estádios. Do ponto de vista estratégico, embora tragam dificuldades a curto e médio prazo, julgo que é positivo termos a infra-estrutura. A decisão da construção não me chocou e fiquei impressionado com o potencial que existe aqui ao nível da realização de eventos.

João Bartolomeu, presidente UDL, afirmou que se «a Leirisport fosse gerida pela UDL só precisava de cinco empregados e dava lucro». Como comenta?
Foi uma afirmação feita num contexto diferente do actual. Não concordo, obviamente, até porque não pode pensar só no estádio, uma vez que a Leirisport tem outras infra-estruturas a seu encargo. E mesmo que fosse só o estádio, temos doze pessoas no estádio e não é muito.

Do total de dívidas de curto-prazo, mais de 33 milhões de euros, 16,6 milhões respeitam a bancos, 1,5 milhões a fornecedores, 3,9 fornecedores de imobilizado e 3,4 milhões adiantamentos de clientes? Quem são os clientes que pagaram adiantado?
É a Câmara Municipal. São verbas já recebidas associadas aos contratos-programa com a Câmara, incidentes, por um lado, no Complexo Municipal de Piscinas de Leiria e, por outro, nos parques de estacionamento na envolvente do Estádio.

Do lado das dívidas à Leirisport, destacam-se 3,8 milhões de euros da conta de outros devedores (ou seja nem clientes nem Estado). Quem deve este dinheiro à Leirisport?
É um valor que consta do contrato-programa dos parques de estacionamento. O facto destas verbas não estarem suportadas em facturas, mas em contratos-programa, levou a que se considerassem nesta rubrica, e não em clientes. Tanto esta situação como a anterior, do Complexo Municipal de Piscinas, deverão ser contabilisticamente regularizadas dentro em breve, conforme se refere no Relatório e Contas.


Perguntas dos outros:

João Paulo Leonardo – Revista Invest

O secretário de Estado da Administração Local, Eduardo Cabrita, disse que as empresas municipais não podem ser uma forma de duplicação de tarefas, de remunerações, ou de actividades. Qual é a sua opinião sobre esta matéria, sabendo-se, naturalmente, que o conselho de administração da Leirisport integra (e remunera) uma vereadora da Câmara Municipal de Leiria?
A Lei hoje permite essa remuneração, se a nova lei não permitir, e tudo aponta para ai, acho normal. O  maior problema na Leirisport é termos de ir a assembleias gerais todas as semanas, dar a conhecer o dia à dia da empresa. Em todas as reuniões de Câmara se fala de Leirisport. Não é querer omitir informação, é achar que se deve transmitir em momentos oportunos, para não prejudicar a vida da empresa. Existem questões estratégicas que discutidas em praça pública antes do tempo penalizam a actividade. É o timming de divulgação da informação que está em causa. Qualquer pessoa percebe isto. Gostava que a Leirisport tivesse uma vida mais normal desse ponto de vista. Em vez desta constante exposição pública, sugeria que se criasse, na estrutura da empresa, um Conselho Geral, com funções consultivas, onde estivessem representadas todas as partes interessadas, até para darem contributos positivos.

José Maria Ferreira – presidente da Tosel

A Leirisport tem já meia dúzia de anos com as performances que as Administrações nos deram a conhecer. Tem uma ideia do que é que será a Leirisport dentro de 10 anos?
Será aquilo que os leirienses, e a Câmara em primeiro lugar, quiserem. Se conseguirmos eliminar custos de contexto e melhorar a performance da empresa, a Leirisport, considerando todas as infra-esturturas que tem a seu cargo, pode ser uma realidade interessante, continuando a cumprir os objectivos estratégicos definidos pelo município.
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Comentárioscomente este artigo
 
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