Opinião  
Márcio Lopes - Professor na ESTG
Macroeconomia Empresarial – A iliteracia dos Novos Gestores
22 Set. 06
A Macroeconomia, enquanto campo teórico autónomo, nasceu no início da década de 40 como uma resposta intelectual à Grande Depressão de 1929, e está originariamente associada ao nome do economista J.M. Keynes. Desde então, a Macroeconomia tem sido reconhecida, desenvolvida e adoptada pelos Governos como um conjunto de teorias de prevenção às hecatombes económicas. Trata-se da Macroeconomia ao serviço da governação dos Estados.  

Mas o mundo mudou. As relações entre os Governos e as empresas tornaram-se mais permeáveis e, hoje em dia, há uma necessidade premente de novas abordagens teóricas de gestão empresarial, de aprendizagem organizacional, tomando em atenção os fenómenos macroeconómicos globais.

Por exemplo: o preço internacional do barril do petróleo aumenta, geram-se tendências de inflação e a Reserva Federal (FED) norte-americana faz subir os juros. Passado pouco tempo, o Banco Central Europeu (BCE) anuncia a subida da euribor. Os mercados financeiros descem. A Balança Comercial dos EUA encontra-se em défice prolongado e o dólar deprecia-se face ao euro. A china flexibiliza o seu sistema cambial, e o preço internacional do aço aumenta. A Costa do Marfim entra em guerrilha interna e o preço internacional do cacau aumenta na Europa. Enfim…Todos esses fenómenos macroeconómicos globais, que se disseminam de forma veloz e integrada entre os países, terão, em última instância, implicações ao nível microeconómico das empresas. E a questão que se põe é a seguinte: haverá, ao nível do quadro executivo das empresas, uma iliteracia macroeconómica empresarial? A resposta é inequivocamente SIM.

«...a iliteracia macroeconómica pode ser resolvida com formação adequada...»

Peter Navarro, num artigo publicado na revista Academy of Management, Learning & Education (Junho 2006), define como literacia macroeconómica dos executivos (CEO) «a capacidade de ler e interpretar os fenómenos macroeconómicos, e saber aplicá-los na gestão empresarial». Um empresário ou executivo não tem que saber antecipar os ciclos dos negócios, mas deve ter a capacidade para interpretar os indicadores de mercado e reagir de forma mais rápida do que os seus concorrentes, no sentido de manter ou obter vantagem competitiva.

Mas, assim como qualquer outra anomalia cognitiva, a iliteracia macroeconómica pode ser resolvida com formação adequada e com objectivos bem definidos, seja ao nível das licenciaturas, ou ao nível da formação avançada.

No âmbito da Declaração de Bolonha, tenho vindo a observar que a grande maioria das licenciaturas em Gestão, tanto no País, como na Europa em geral, e em contra-tendência com os EUA, está a reduzir o peso da área científica da Economia na estrutura curricular dos cursos em detrimento das Finanças Empresariais e da Gestão em geral. Ou seja, no longo prazo, o País terá gestores que saberão pensar a organização, com um razoável domínio técnico de Finanças e Contabilidade, mas com uma dramática iliteracia macroeconómica. Numa altura em que as empresas estão cada vez mais inseridas em contextos globais, a nova orientação curricular de formação para Gestão diminui as competências do gestor no sentido de pensar a organização exclusivamente do seu ponto de vista interno. É um paradoxo de capital humano que, no médio prazo, será transformado em custo a ser suportado pelo tecido empresarial.
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As relações entre os Governos e as empresas tornaram-se mais permeáveis e, hoje em dia, há uma necessidade premente de novas abordagens teóricas de gestão empresarial, de aprendizagem organizacional
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