Entrevistas  
António Carrapatoso – Presidente da Vodafone e mentor do Compromisso Portugal
«A região de Leiria é uma das mais dinâmicas de Portugal»
8 Set. 06
Célia Marques

(Entrevista publicada na Revista Leiria Global, editada pelo Jornal de Leiria e publicada a 29 de Junho de 2006, com o JL e Diário Económico)


Cavaco Silva, enquanto Presidente da República, pode ser uma mais valia importante no contexto da internacionalização da economia portuguesa, afirma António Carrapatoso. Quanto ao aumento das exportações, «não se faz por decreto» e no que respeita à questão energética, «há muito que Estado devia ter saído do sector enquanto accionista», afirma. Projectos como a OTA e o TGV deviam ser estudados por membros independentes, que seriam responsabilizados pelas projecções feitas.

De quem recolheu as maiores influências enquanto empresário e gestor?
As influências que recebo provêem da minha análise e interacção com o mundo envolvente, nomeadamente da dinâmica da iniciativa privada, dos casos de sucesso e insucesso, em Portugal e no estrangeiro.

No contexto da internacionalização, considera que os portugueses têm características de personalidade que se traduzem em vantagens competitivas?
As vantagens dos portugueses têm a ver com a capacidade de interacção com outros povos e de adaptação a novas situações. As desvantagens estão relacionadas com uma elevada resistência à mudança, nomeadamente, quando se mantêm no seu ambiente nacional.

Que apreciação faz do tecido empresarial da região de Leiria, nomeadamente, no que respeita a movimentos de internacionalização?
Não conheço em detalhe o tecido empresarial da região de Leiria, mas sei que é uma das regiões mais dinâmicas de Portugal em termos da iniciativa privada e da actuação de pequenas e médias empresas. Temos que saber criar um enquadramento mais favorável à actividade e competitividade empresarial, não só para as grandes empresas, mas também, e particularmente, para as PME. Estas têm, cada vez mais, de olhar para o mercado internacional, onde se deve diferenciar e assumir posições relevantes nas áreas de negócio específicas onde actuam.

Considera que Cavaco Silva, enquanto Presidente da República, pode ajudar aos objectivos de internacionalização da economia portuguesa?
Julgo que o professor Cavaco Silva, com a experiência governativa que adquiriu, e com os conhecimentos da realidade nacional e internacional que tem, pode ser uma mais valia importante para o País em termos da sua internacionalização.

À espera de «um processo efectivo de alterações estruturais»

Que apreciação faz dos primeiros meses de governação deste governo?
Tem havido um sentido positivo em muitas medidas que tem tomado. Espero que saiba, agora, aprofundar uma visão económica social para o País e iniciar um processo efectivo de alterações estruturais.

Que comentário tece às medidas anunciadas no que respeita à internacionalização da economia?
A internacionalização da economia, em particular o necessário aumento das exportações, não acontecerá por decreto, mas sim se o governo, e os vários agentes da sociedade, souberem criar um enquadramento favorável à atracção e retenção de investimentos de qualidade em Portugal, sejam de origem nacional ou estrangeira.

Qual o seu grau de optimismo face à evolução da nossa economia? Em que moldes assenta o novo modelo económico que defende?
Só poderemos estar optimistas se formos capazes de iniciar um processo sério de reformas estruturais que passarão, necessariamente, por um novo papel do Estado, um novo modelo social, o aumento da qualificação, formação e responsabilização dos portugueses e a maior abertura e flexibilidade dos vários mercados, desde os mercados dos factores, aos dos bens não transaccionáveis.

«As tecnologias de informação, têm de fazer parte do business thinking das empresas»

Qual o estádio de evolução das nossas PME no que respeita ao uso das comunicações e quais são os maiores desafios a este nível?
As telecomunicações, e em geral as tecnologias de informação, têm de fazer parte do “business thinking” das empresas, ou seja, fazer parte da sua estratégia e incorporar a concepção dos produtos e serviços que comercializam. Não podem ser consideradas meros instrumentos administrativos e de comunicação.

Quais são, actualmente, os maiores desafios que enfrentam as empresas de telecomunicações e como se prepara a Vodafone para lhes dar resposta?
O que é importante é que exista um mercado competitivo, bem regulado, aberto e sem posições dominantes no sector das telecomunicações, que leve as empresas a inovarem e a criarem cada vez melhores produtos e serviços para os consumidores, a preços competitivos. A Vodafone procura ser uma empresa inovadora orientada para os seus clientes.

Quais serão as maiores evoluções nos telemóveis, no que respeita à incorporação de tecnologia?
Cada vez mais o telemóvel será um instrumento de comunicação global incorporando voz, dados, imagem, vídeo e acesso à Internet.

«Concordo com a descentralização das decisões e do governance»

Concorda com algum tipo de regionalização?
Concordo com a descentralização das decisões e do governance das actividades que melhor possam ser desempenhadas a nível local.

Participou na execução de um manifesto no qual se lia que «mais investimento em obras públicas irá favorecer sobretudo as economias de onde importamos, sem efeito sensível na capacidade produtiva da economia portuguesa». Isto significa que não considera o TGA e a OTA como projectos prioritários?
O que acho importante é que os investimentos públicos de elevado montante sejam devidamente analisados e estudados salientando-se os benefícios concretos que irão trazer para o País. É também necessário que exista uma responsabilização clara de quem propõe e decide esses investimentos e de quem os terá de executar, devendo-se ainda explicar quaisquer desvios relativamente ao plano inicial. Deverão existir comissões multidisciplinares com membros prestigiados e independentes que, a pedido do governo, estudem e proponham esses investimentos, responsabilizando-se pelas projecções que fazem, dos seus custos e benefícios, e tal ser transparente e do conhecimento da opinião pública.

Energia: «há muito que o Estado devia ter saído do sector como accionista»

Que comentário tece à afirmação: «No século passado quem dominava as comunicações dominava o mundo. Hoje é quem domina a energia»?
Quem “domina o mundo” são os países que têm cidadãos mais qualificados e competentes, um Estado forte, independente e competente e um enquadramento aos cidadãos que estimula a sua capacidade de iniciativa e empreendedorismo.

A questão energética interfere na actividade de muitas empresas da região. É tema que o preocupa?
O mercado da energia deve ser aberto e transparente, competitivo e sem posições dominantes. Há muito que o Estado devia ter saído do sector como accionista e exercer com competência a sua função de definidor das regras gerais de funcionamento, regulador e fiscalizador.




Compromisso Portugal enquanto espaço de reflexão

Em jeito de balanço, e dois anos depois do arranque do Compromisso Portugal, António Carrapatoso, afirma que a iniciativa teve, «e espero continue a ter», um grande impacto na sociedade portuguesa, em particular na área económica e social. Segundo o gestor, o Compromisso Portugal «tem procurado promover a discussão sobre qual deve ser o modelo económico-social para Portugal, apresentando propostas concretas de mudança».

Quanto aos argumentos que utilizaria para mobilizar os empresários da região de Leiria para a iniciativa, António Carrapatoso afirma que aqueles que estão inconformados com a situação do país, e com a sua prevista evolução futura, e queiram participar na discussão sobre a transformação positiva da nossa sociedade, «de forma a termos uma sociedade mais desenvolvida e com mais oportunidades para todos», podem encontrar «um espaço interessante de reflexão no Compromisso Portugal».
Comentárioscomente este artigo
clique para ampliar
 
«Só poderemos estar optimistas se formos capazes de iniciar um processo sério de reformas estruturais que passarão, necessariamente, por um novo papel do Estado...»
voltar
enviar
© 2008 : Press21, Unip. Lda. imprimir topo