Entrevistas  
Jorge Martins - Director Geral da Inteplásticos
«A internacionalização é inevitável»
18 Ago. 06
Principais mercados: Europa e Israel
Exportações: 85% de 11,36 M€ de facturação em 2005

Célia Marques

(Entrevista publicada na Revista Leiria Global, editada pelo Jornal de Leiria e publicada a 29 de Junho de 2006, com o JL e Diário Económico)

A política está moribunda, o Choque Tecnológico tem uma voltagem pequena e a OTA seria uma prioridade se estivesse enquadrada numa política global de transportes, revela Jorge Martins, director geral da Inteplástico. Quanto à estratégia desta transformadora de termoplásticos, sedeada na Marinha Grande, passa pela aposta na área de montagem, desenvolvendo capacidades na concepção de equipamentos que «minimizem o erro humano», afirma.

Esteve ligado à política durante algum tempo. Qual é o estado da política em Portugal?
Está moribunda. Em declínio acentuado, o que não significa que não reconheça medidas eficazes para resolver o problema nacional, que é preocupante. Os relatórios divulgados recentemente não são nada favoráveis.

Que medidas salienta?
A restrição à despesa pública, eliminação de alguns privilégios da função pública, alguma moralização no sistema de reformas e a preocupação com a fuga fiscal. A primeira condição para sair da crise é exportar e o Choque Tecnológico deve ter uma voltagem tão pequena que ainda ninguém o sentiu.

Mas o Estado definiu a internacionalização da economia como prioridade…
As medidas de apoio à criação de produtos competitivos e de grande valor acrescentado são incipientes.

Cavaco Silva, enquanto presidente da República, pode ajudar aos objectivos de internacionalização?
Já o fez. O discurso que fez a 25 de Abril é o exemplo do que um presidente da República pode realizar ao nível da mais alta influência. Foi um apelo à união, no sentido de resolver os problemas, começando pelos velhos e crianças.

O governo entendeu o discurso como sendo o legitimar da actuação que tem tido…
Bom, contra não foi.

«A OTA era uma prioridade se estivesse enquadrada numa política global de transportes»

Projectos como o TGV e a OTA que sentimento lhe causam?
Eu também gostava de ter um Austin Martin e um Rolls Royce e não tenho. A OTA era uma prioridade se estivesse enquadrada numa política global de transportes, e ao serviço de uma plataforma de movimento de pessoas e carga, uma vez que o aeroporto de Lisboa tende, pelas suas limitações, a perder importância. O TGV também seria importante se respondesse a esse desafio, mas é um projecto que deve ser realizado em função da capacidade financeira do país e mobilizando a sociedade civil e o investimento privado. A minha apreensão prende-se com a capacidade de realizar estes projectos sem desvios orçamentais.

Qual dos dois considera mais importante para a região de Leiria?
A OTA.

Leiria ganharia com um processo de regionalização?
Acho que o País é pequeno demais para isso. Mas concordo com a descentralização de competências, para tornar os processos mais céleres.

«Coimbra não tem a ver com as nossas características»

A existir uma região Centro, como encara o facto de ficarmos ligados a Coimbra?
Coimbra não tem a ver com as nossas características. A nossa região teria de abarcar Leiria, Santarém e uma parte de Lisboa.

Temos líderes regionais fortes para responder a esse processo?
Não vejo nenhum. Mas provavelmente seria aquele que se mexesse melhor dentro do aparelho partidário.

Costuma dizer que a capacidade criadora é essencial nas empresas. Como é que estimula a dos seus colaboradores?
Premiando as sugestões em função dos resultados depois de aplicadas, e recomendando aos quadros que se apoiem no conhecimento dos colaboradores com níveis de ensino mais modestos, mas que estão sempre em contacto com os meios de produção.

Que conselhos daria a uma empresa que dá início a um processo de internacionalização?
A partir do momento em que se organizam para o mercado, as fronteiras políticas, ou geopolíticas, não contam. A internacionalização é inevitável.

Quando iniciou a empresa tinha ideia da dimensão que podia vir a atingir?
Nunca se consegue determinar, à partida, a dimensão ideal de uma empresa, porque se não evoluir corre o risco de desaparecer. Acho que, atendendo às minhas capacidades, realizei um trabalho maioritariamente positivo.

«China representa oportunidade para o vinho, cortiça e conservas»

Pode encarar-se a China como uma oportunidade?
Neste sector não. Mas pode vir a ser para o vinho, conservas e cortiça, por exemplo.

Tem como objectivo duplicar a facturação da empresa nos próximos dois anos e meio e por isso tem um plano reestruturação em curso. Em que consiste esse plano?
Estamos a investir num sistema de logística mais eficiente. É uma área que tem uma importância enorme na actividade da empresa. Para além disso, pretendemos fazer um up grade de conhecimento em todas as áreas, apostar na formação e qualificação das pessoas. Vamos contratar, por exemplo, um agente de métodos. Aquilo a que designo de “descobridor de melhoria contínua”.

Quais força o movem, enquanto empresário?
Ganhar dinheiro, realizar as pessoas e contribuir para a qualidade de vida da comunidade, através do apoio a iniciativas que considero válidas, desde a cultura aos desportos.

Quais são as suas preferências a nível de leitura?
Gosto de biografias, estudos e romances, mas o livro que mais me fez pensar foi o Despertar dos Mágicos. Dá-nos, de certo modo, uma explicação para a origem do conhecimento e evolução das sociedades.

«O percurso: ensino, constituição de família, trabalho estável acabou»

A sociedade está em mutação, em ajuste a alterações de índole económica. Que diferenças identifica e o que prevê neste contexto?
As coisas não voltarão a ser como eram. O percurso: ensino, constituição de família, trabalho estável acabou, e com ele acabou também o estilo de vida a que sempre estivemos habituados… Há uma exigência constante de diversificação, aquisição de novas capacidades e formação. A flexibilidade é importante, o que é preocupante porque somos, por natureza, avessos à mudança. O nosso principal problema é o desemprego. A economia devia ter capacidade para absorver trabalho qualificado e, por razões variadas, não tem.




Indústria automóvel com potencial de crescimento

A associação da Inteplástico ao grupo francês Bourbon Fabi surgiu da necessidade de criar massa crítica, nomeadamente em engenharia de produto e capacidade de inovação, para que a empresa pudesse crescer na área de mercado da indústria automóvel. A empresa é fornecedora de primeira linha da Toyotta, PSA (Peugeot-Citroën) Renault e Volkswagen, tendo ainda como clientes a Faurécia, Visteon e Tyco.

Segundo Jorge Martins, a indústria automóvel é, para a Inteplástico, a que apresenta maior potencial de crescimento, sendo que a manufactura tem tendência a deslocar-se para países de mão-de-obra barata, enquanto na Europa permanecem os processos de engenharia e desenvolvimento de produto, «a componente de inovação que nos protege da China», salienta.

A diferenciação da oferta assenta no «aproveitamento das capacidades em montagens e decoração de peças por pintura, tampografia e hot-stamping», e a nova fábrica, um investimento de cerca de sete milhões de euros, «veio potenciar os recursos da empresa nesta área». Outra opção estratégica assumida consiste «no recurso à sub-contratação para moldação de peças por injecção, aproveitando a capacidade disponível existente na região», adianta.

Os moldes utilizados na Inteplástico são cem por cento portugueses, embora um cliente já tenha apresentado moldes sul-coreanos: «a concepção é boa, os materiais são frágeis, mas fazem-nos com grande rapidez e a preços competitivos», finaliza Jorge Martins.  

A empresa estima, para 206, um resultado antes de impostos de 1,2 milhões de euros e uma facturação de 12,5 milhões de euros, ou seja, mais 10% face ao ano anterior.
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 Foto: Ricardo Graça
«As medidas de apoio à criação de produtos competitivos e de grande valor acrescentado são incipientes.»
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