Principais mercados: Europa e Israel Exportações: 85% de 11,36 M€ de facturação em 2005
Célia Marques
(Entrevista publicada na Revista Leiria Global, editada pelo Jornal de Leiria e publicada a 29 de Junho de 2006, com o JL e Diário Económico)
A política está moribunda, o Choque Tecnológico tem uma voltagem pequena e a OTA seria uma prioridade se estivesse enquadrada numa política global de transportes, revela Jorge Martins, director geral da Inteplástico. Quanto à estratégia desta transformadora de termoplásticos, sedeada na Marinha Grande, passa pela aposta na área de montagem, desenvolvendo capacidades na concepção de equipamentos que «minimizem o erro humano», afirma.
Esteve ligado à política durante algum tempo. Qual é o estado da política em Portugal? Está moribunda. Em declínio acentuado, o que não significa que não reconheça medidas eficazes para resolver o problema nacional, que é preocupante. Os relatórios divulgados recentemente não são nada favoráveis.
Que medidas salienta? A restrição à despesa pública, eliminação de alguns privilégios da função pública, alguma moralização no sistema de reformas e a preocupação com a fuga fiscal. A primeira condição para sair da crise é exportar e o Choque Tecnológico deve ter uma voltagem tão pequena que ainda ninguém o sentiu.
Mas o Estado definiu a internacionalização da economia como prioridade… As medidas de apoio à criação de produtos competitivos e de grande valor acrescentado são incipientes. Cavaco Silva, enquanto presidente da República, pode ajudar aos objectivos de internacionalização? Já o fez. O discurso que fez a 25 de Abril é o exemplo do que um presidente da República pode realizar ao nível da mais alta influência. Foi um apelo à união, no sentido de resolver os problemas, começando pelos velhos e crianças.
O governo entendeu o discurso como sendo o legitimar da actuação que tem tido… Bom, contra não foi.
«A OTA era uma prioridade se estivesse enquadrada numa política global de transportes»
Projectos como o TGV e a OTA que sentimento lhe causam? Eu também gostava de ter um Austin Martin e um Rolls Royce e não tenho. A OTA era uma prioridade se estivesse enquadrada numa política global de transportes, e ao serviço de uma plataforma de movimento de pessoas e carga, uma vez que o aeroporto de Lisboa tende, pelas suas limitações, a perder importância. O TGV também seria importante se respondesse a esse desafio, mas é um projecto que deve ser realizado em função da capacidade financeira do país e mobilizando a sociedade civil e o investimento privado. A minha apreensão prende-se com a capacidade de realizar estes projectos sem desvios orçamentais.
Qual dos dois considera mais importante para a região de Leiria? A OTA.
Leiria ganharia com um processo de regionalização? Acho que o País é pequeno demais para isso. Mas concordo com a descentralização de competências, para tornar os processos mais céleres.
«Coimbra não tem a ver com as nossas características»
A existir uma região Centro, como encara o facto de ficarmos ligados a Coimbra? Coimbra não tem a ver com as nossas características. A nossa região teria de abarcar Leiria, Santarém e uma parte de Lisboa.
Temos líderes regionais fortes para responder a esse processo? Não vejo nenhum. Mas provavelmente seria aquele que se mexesse melhor dentro do aparelho partidário.
Costuma dizer que a capacidade criadora é essencial nas empresas. Como é que estimula a dos seus colaboradores? Premiando as sugestões em função dos resultados depois de aplicadas, e recomendando aos quadros que se apoiem no conhecimento dos colaboradores com níveis de ensino mais modestos, mas que estão sempre em contacto com os meios de produção.
Que conselhos daria a uma empresa que dá início a um processo de internacionalização? A partir do momento em que se organizam para o mercado, as fronteiras políticas, ou geopolíticas, não contam. A internacionalização é inevitável.
Quando iniciou a empresa tinha ideia da dimensão que podia vir a atingir? Nunca se consegue determinar, à partida, a dimensão ideal de uma empresa, porque se não evoluir corre o risco de desaparecer. Acho que, atendendo às minhas capacidades, realizei um trabalho maioritariamente positivo.
«China representa oportunidade para o vinho, cortiça e conservas»
Pode encarar-se a China como uma oportunidade? Neste sector não. Mas pode vir a ser para o vinho, conservas e cortiça, por exemplo.
Tem como objectivo duplicar a facturação da empresa nos próximos dois anos e meio e por isso tem um plano reestruturação em curso. Em que consiste esse plano? Estamos a investir num sistema de logística mais eficiente. É uma área que tem uma importância enorme na actividade da empresa. Para além disso, pretendemos fazer um up grade de conhecimento em todas as áreas, apostar na formação e qualificação das pessoas. Vamos contratar, por exemplo, um agente de métodos. Aquilo a que designo de “descobridor de melhoria contínua”.
Quais força o movem, enquanto empresário? Ganhar dinheiro, realizar as pessoas e contribuir para a qualidade de vida da comunidade, através do apoio a iniciativas que considero válidas, desde a cultura aos desportos.
Quais são as suas preferências a nível de leitura? Gosto de biografias, estudos e romances, mas o livro que mais me fez pensar foi o Despertar dos Mágicos. Dá-nos, de certo modo, uma explicação para a origem do conhecimento e evolução das sociedades.
«O percurso: ensino, constituição de família, trabalho estável acabou»
A sociedade está em mutação, em ajuste a alterações de índole económica. Que diferenças identifica e o que prevê neste contexto? As coisas não voltarão a ser como eram. O percurso: ensino, constituição de família, trabalho estável acabou, e com ele acabou também o estilo de vida a que sempre estivemos habituados… Há uma exigência constante de diversificação, aquisição de novas capacidades e formação. A flexibilidade é importante, o que é preocupante porque somos, por natureza, avessos à mudança. O nosso principal problema é o desemprego. A economia devia ter capacidade para absorver trabalho qualificado e, por razões variadas, não tem.
Indústria automóvel com potencial de crescimento
A associação da Inteplástico ao grupo francês Bourbon Fabi surgiu da necessidade de criar massa crítica, nomeadamente em engenharia de produto e capacidade de inovação, para que a empresa pudesse crescer na área de mercado da indústria automóvel. A empresa é fornecedora de primeira linha da Toyotta, PSA (Peugeot-Citroën) Renault e Volkswagen, tendo ainda como clientes a Faurécia, Visteon e Tyco.
Segundo Jorge Martins, a indústria automóvel é, para a Inteplástico, a que apresenta maior potencial de crescimento, sendo que a manufactura tem tendência a deslocar-se para países de mão-de-obra barata, enquanto na Europa permanecem os processos de engenharia e desenvolvimento de produto, «a componente de inovação que nos protege da China», salienta.
A diferenciação da oferta assenta no «aproveitamento das capacidades em montagens e decoração de peças por pintura, tampografia e hot-stamping», e a nova fábrica, um investimento de cerca de sete milhões de euros, «veio potenciar os recursos da empresa nesta área». Outra opção estratégica assumida consiste «no recurso à sub-contratação para moldação de peças por injecção, aproveitando a capacidade disponível existente na região», adianta.
Os moldes utilizados na Inteplástico são cem por cento portugueses, embora um cliente já tenha apresentado moldes sul-coreanos: «a concepção é boa, os materiais são frágeis, mas fazem-nos com grande rapidez e a preços competitivos», finaliza Jorge Martins.
A empresa estima, para 206, um resultado antes de impostos de 1,2 milhões de euros e uma facturação de 12,5 milhões de euros, ou seja, mais 10% face ao ano anterior. |