Opinião  
globADVANTAGE - Da Região para o mundo: Pensar global
O que não mudou, mas devia ter mudado
4 Mar.
Manuel Portugal
Professor na ESTG-IPLeiria
Investigador do globADVANTAGE – Center of Research in International Business & Stra


A crise económico-financeira não passou, como parece óbvio ao lermos os indicadores de crescimento do PIB, da confiança de consumidores e investidores, das alegadas promiscuidades entre a política e algum do mundo empresarial, o crescente desemprego e a falta de ética que continua a grassar. Não nos percamos com pormenores pequenos ou figuras de estilo: até este momento pouco foi feito para impedir que nova crise, com contornos idênticos surja.

Há uma outra face da crise, e não me refiro à importantíssima questão social, aos cidadãos que irremediavelmente ficaram devotos à pobreza - e não é demais recordar que há, em Portugal, cerca de 2 milhões de pobres. Refiro-me à crise da não mudança. Ora, porque é esta uma crise? Porque se havia algo de fundamentalmente errado que permitiu que o excesso de ganância de uns poucos prejudicassem milhões de cidadãos, este foco deve ser apagado.

Esta crise veio revelar fraquezas no nosso sistema que não podem não nos assustar terrivelmente. Muito do que esteve na génese já conhecemos pelos media, onde se destacam os comportamentos imorais e a incapacidade dos órgãos de supervisão.  

Num artigo interessante da Harvard Business School um conjunto de autores identificou alguns aspectos que sintetizo:

- Aumento do poder dos Estados e descredibilização do sistema de economia de mercado. A mão invisível foi incapaz de controlar a ganância.

- Ganância e orientação para o curto prazo. No curto prazo tudo parecia bem, quando os ganhos eram elevados e a ganância alimentada. O foco não era a empresa nem a sociedade, clientes, etc. mas apenas accionistas ávidos de mais lucros.

- Ambivalência moral. Coisas que antes eram definitivamente erradas começaram a ter nomes mais distintos e o que era obviamente corrupção ganhou novas vestes que até fizeram parecer tudo bem.

- Complexidade de instrumentos financeiros que poucos entendiam, que muitos fingiam entender e que facilitaram a corrupção.

- Falta de razoabilidade dos executivos nas decisões, inclusive nas decisões sobre quanta dívida a empresa aguenta.

- Falhanço dos mercados em entender o risco envolvido nas operações, que levou ao financiamento de operações "impossíveis" e muitos castelos de cartas.

- Comportamento de "manada" em que uns fazem porque outros fazem - e que no artigo referem ser difícil distinguir este comportamento, de ganância, estupidez ou corrupção.

O resultado pós-crise parece-me ainda mais perverso: a intervenção generalizada do Estado na economia é nefasta! É tão mais nefasta quanto incapazes forem os que dirigem destinos.

Portanto, tudo continua mais ou menos na mesma. Um mundo um pouco menos livre, com maior concentração de poder no Estado à custa do contribuinte que é chamado a pagar os prejuízos e muito raramente a partilhar dos lucros. Quando tudo parece ter ficado mais ou menos na mesma só resta ao cidadãos falar no assunto, discuti-lo com os amigos e vizinhos e exigir uma mudança. O real problema existe quando os cidadãos não sentem ter a liberdade de falar ou quando não falam para não prejudicar as suas possibilidades de também poderem vir a beneficiar.
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O resultado pós-crise parece-me ainda mais perverso: a intervenção generalizada do Estado na economia é nefasta! É tão mais nefasta quanto incapazes forem os que dirigem destinos.
 
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