Entrevistas  
Acácio de Sousa - Presidente da ADLEI
«Leiria tem falta de um evento anual de grande dimensão»
29 Dez. 06
Célia Marques
cmarques@leiriaeconomica.com


O congresso regional que a Associação para o Desenvolvimento de Leiria (ADLEI) vai promover em Abril, a organização do território e o planeamento a nível local foram alguns dos temas que mereceram o comentário de Acácio de Sousa. O presidente da associação comenta ainda a actuação do actual governo e a vinda do novo centro comercial para Leiria.

A região Oeste tem tido um papel activo no definir de uma estratégia conjunta para aplicação dos fundos que estão para vir. Existe um plano para retirar partido dos apoios de uma forma coordenada na nossa região?
A dispersão evita que a região seja projectada com outra força. Aqui mais acima existe o plano estratégico da Alta Estremadura, mas esta região não tem dimensão para se candidatar ao QREN [Quadro de Referência Estratégico Nacional].  A Alta Estremadura não coincide com a NUT III nem tem dimensão para se afirmar como uma região. Por outro lado, o facto de Ourém não pertencer à NUT III representa também uma dificuldade e um problema, para o qual importa encontrar solução. O plano devia ser revisto e ampliado para que houvesse também articulação com o Oeste.Há toda uma organização que devia ser repensada. Temos dúvidas que os planos estratégicos estejam a ser definidos em função do que está pensado a nível de PNOPT [Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território]. Existem algumas dessintonias importantes. Embora cada região tenha a sua identidade, é preciso haver um pensamento global.

O que salientaria de positivo no PNOPT?
A definição de um eixo estratégico de Leiria, Coimbra, Aveiro, Viseu é vantajosa para nós, mas não contempla o sul de Leiria nem casa com as NUT. Para além disso, o PNOPT secundariza o Porto de Peniche, que tem boas condições para ser potencializado. O programa aponta linhas orientadoras em traços largos mas, na minha opinião de leigo, o processo está invertido, porque está a avançar-se com os PDM antes de definido e conhecido o ordenamento do território.

«A logística representa uma grande oportunidade para as empresas»

Como retirar partido de grandes infra-estruturas como o TGV e a OTA?
São infra-estruturas fundamentais para apoiar a região. Não há dúvida que ficamos mais ligados ao centro da Europa. Os grandes meios de comunicação sempre trouxeram progresso à actividade económica e empresarial. É a oportunidade para criarmos uma plataforma logística de grandes dimensões, com capacidade para fazer distribuição para Espanha. Também estamos próximos do mar, que está sub-aproveitado. Temos três portos num raio de 50 quilómetros. A logística representa uma grande oportunidade para as empresas.

O TGV com paragem obrigatória em Leiria?
Era importante, mas podem existir outras alternativas que também beneficiem a região.

E relativamente ao QREN, o que salientaria de positivo?
O facto de prever programas inter-municipais. É muito importante ter uma visão global, e a obrigatoriedade de alargar horizontes é um bom princípio. Depois, a aposta na qualificação. Pode ser a nossa última oportunidade nesta área, em que é tão importante a existência de meios, como a exigência de rigor na sua aplicação.

O que se concluiu no fórum, «Jovens diplomados: que empregabilidade», que a ADLEI promoveu recentemente?
Que existem áreas em declínio – como algumas actividades no sector primário e actividades menos técnicas – e áreas com grande potencial de crescimento de empregabilidade, como o serviço social e áreas técnicas de grande especificidade.

«Temos boa formação, mas pode não estar adequada ao mercado de trabalho»

Leiria forma os jovens para o mercado de trabalho?
Temos boa formação, mas pode não estar adequada ao mercado de trabalho. Por esse motivo, é importante que as escolas façam um maior acompanhamento dos alunos até ao mercado de trabalho. Já temos alguns exemplos disso. O IPL que é uma escola de alta craveira e reconhecida pelos nossos empresários. Considero positiva a medida que visa obrigar as empresas a recrutar pessoas com um mínimo de formação.

E relativamente à Flexisegurança, que comentários tece?
Parte de três constatações importantes: existe cada vez menos o emprego para a vida, não se pode olhar para o mercado de trabalho só a nível local e é necessária uma maior polivalência. Tudo isso é positivo mas preocupa-me que o Estado não consiga dar o suporte social necessário. Por outro lado, a instabilidade ainda não faz parte da nossa cultura.

Concorda com algum tipo de regionalização?
Acho que o País deve avançar para a regionalização, embora não se possa transformar num mosaico, porque é pequeno. De certa forma, a divisão do território já está em curso com o PRACE [Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado] e o reordenamento dos serviços públicos, que vem trazer um novo alinhamento da administração. Nestas questões, é preciso que os protagonismos não se sobreponham ao que é realmente importante.

«Do ponto de vista administrativo, tenho dificuldade em ver a região abaixo do Mondego partida a meio»

Que mapa desenharia para a região em que ficaríamos integrados?
Leiria não pode despegar-se do distrito de Coimbra. Mas é importante que a regionalização não leve a subalternidade entre territórios. O importante é a óptica da complementaridade. Há uma tradição que Coimbra suga, que são os serviços à volta da universidade. É preciso dirimir os tradicionais conflitos bairristas, porque temos o dever de congregar esforços no sentido do desenvolvimento de todos. Ourém pode desenvolver projectos autónomos, mas para outros de índole mais global é importante que esteja integrado na nossa região.  Do ponto de vista administrativo, tenho dificuldade em ver a região abaixo do Mondego partida a meio.

E a nível local, o que é urgente fazer, ou desenvolver, em Leiria?
Está na hora de transformar Leiria numa cidade aprazível, num espaço agradável. Os empresários têm dificuldade em atrair quadros para Leiria. São necessárias boas acessibilidades, uma boa malha urbanística, e boas infra-estruturas de lazer com parques, espaços livres. A recuperação do centro histórico também é importante. Leiria tem de saber cativar e proporcionar bem-estar aos seus habitantes.

Têm-se registado melhorias a esse nível?
Em intervenções pontuais. O Polis trouxe as pessoas ao rio, mas se fosse mais ambicioso levaria ainda mais gente. Leiria tem falta de uma iniciativa musical, ou desportiva, anual de grande dimensão.

Existe um planeamento integrado a nível local?
Não existem esses hábitos. São “buracos que se abrem”... falta uma cultura de visão integrada.

«Resta-nos esperar por uma arquitectura de qualidade, que não crie constrangimentos de betão e de acessibilidades»

Relativamente ao novo centro comercial, concorda com a localização escolhida?
O centro comercial é um factor de desenvolvimento de Leiria. É importante que haja um pólo de atracção comercial na cidade. Naquele sítio levantam-se algumas dúvidas, porque a cidade tem falta de espaços abertos e amplos e é mais um que se fecha. Mas esta questão pode ser resolvida com um projecto arquitectónico moderno que preveja algum desafogo. Ressalvadas as piscinas e campo de treinos, resta-nos esperar por uma arquitectura de qualidade, que não crie constrangimentos de betão e de acessibilidades.

E relativamente ao aproveitamento do Topo Norte do Estádio?
Não sei se terá condições para albergar o centro comercial, mas os promotores saberão.

O comércio tradicional está preparado?
O comércio tradicional sofre sempre impactos e tem de ser defendido, com dinamização dos espaços de rua e criação de circuitos que atraiam as pessoas. Tem vantagens, como a personalização do atendimento, e é nisso que tem de apostar.

É fácil mobilizar os leirienses no sentido da participação em temas de interesse para a região?
Nada no associativismo é fácil. O associativismo vale por bandeiras temporárias. A ADLEI neste momento está focada na definição do posicionamento estratégico da região. Não há muito dinamismo nem participação na discussão das políticas públicas.  

«Temos um tecido empresarial muito dinâmico e um ensino tecnológico de qualidade»

Em que áreas somos competitivos e em torno das quais se poderia criar um pólo de competitividade na região?
Em termos de ensino especializado e pujança económica e turismo. Temos um tecido empresarial muito dinâmico que tem necessidade de qualificar os seus quadros e, por outro lado, um ensino tecnológico de qualidade. Podia gerar-se um pólo de competitividade em torno destas dinâmicas. O turismo é uma âncora fortíssima no que respeita a Fátima, que pode ser complementando com roteiros noutros santuários. Temos a Batalha e Alcobaça do ponto de vista arquitectónico, o tipicismo da Nazaré, as praias para desportos radicais, como Peniche para o surf e a Praia do Salgado para parapente.

Como classificaria a actuação deste governo?
Está atingir-nos a todos. Enquanto conseguir manter a ideia de que as políticas são necessárias e equitativas... Há ministros que dão ar de seriedade, mesmo os que têm tido dificuldade de transmissão de mensagem, como a ministra da Educação.

Saliente duas medidas positivas?
O processo de simplificação dos serviços públicos e desmaterialização dos processos. Os serviços públicos estão, de facto, a mudar.

Como mobilizaria os cidadãos de Leiria para o Congresso «A Região de Leiria: Cultura de Inovação, Território de Oportunidades», que decorrerá em Abril próximo?
Convidava-os a ter o prazer de participar na discussão do futuro da região de onde se espera que saiam compromissos transversais em termos regionais e partidários.




ADLEI promove Congresso  Regional nos dias 20 e 21 de Abril

«A Região de Leiria: Cultura de Inovação, Território de Oportunidades»

A ADLEI está a promover um congresso regional subordinado ao tema «Região de Leiria: Cultura de Inovação, Território de Oportunidades». O objectivo passa por levar a sociedade civil a reflectir, e tomar posições, em temas que a todos dizem respeito.

Em causa estão assuntos como o Programa Nacional para a Política do Ordenamento do Território (PNOPT), o Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN) e os programas operacionais que vigorarão no período de 2007-2013, sem esquecer grandes infraestruturas como o TGV e a Ota, ou a reorganização territorial da Administração Pública.

São temáticas que colocam desafios de grande relevância para a região, no que respeita à sua competitividade territorial e coesão social e regional, e sobre as quais importa encontrar pontos de convergência e detectar oportunidades para, em conjunto, definir o melhor posicionamento estratégico da região. Segundo a associação, no contexto da competitividade, a descoberta de novos nichos de diferenciação assume-se como primordial.

O Congresso desenvolve-se em áreas temáticas como a «Competitividade Territorial», «Sociedade, Cultura e Inovação» e «Eficácia dos Serviços». Conta também com uma secção juvenil, dinamizada pelas Escolas Secundárias Francisco Rodrigues Lobo, Domingos Sequeira e Afonso Lopes Vieira, que desenvolverão temas como o «Desenvolvimento urbano», «Transportes/acessibilidades» e «Ambiente e bem-estar».

O evento conta com o Instituto Politécnico de Leiria e Caixa Agrícola de Leiria como entidades parceiras, tendo sido convidados para o debate representantes de todos os concelhos do distrito e do vizinho concelho de Ourém.

O congresso realiza-se no Instituto Politécnico de Leiria/Escola Superior de Tecnologia e Gestão.
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 Foto Invest/Sérgio Claro
«Está na hora de transformar Leiria numa cidade aprazível, num espaço agradável. Os empresários têm dificuldade em atrair quadros para Leiria»
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